COVID-19: Como higienizar suas joias na pandemia



Afinal, o que é uma joia?

Postado por Amanda De Nardi em

3 minutos de leitura. Texto de Sofia Couto.
 

Um brinco de ouro e diamantes? É joia.

Um brinco de latão e zircônias assinado por um designer famoso? É joia.

Um quadro do Picasso? É joia.

Uma bandeja de prata? É joia, claro.

E se flor cair na minha roupa e eu decidir usar como broche? Ah, é joia também.

Afinal, o que é uma joia?

A Coleção de Rachel 'Bunny' Mellon em exibição no Museu de Belas Artes da Virginia.

Essa pergunta nunca foi tão polêmica quanto é agora. Não é por menos: hoje, é comum se ver o termo “joia” sendo usado para se referir a qualquer objeto de grande estima artística ou alto valor monetário. Não raro também são consideradas joias quaisquer tipologias de adornos corporais, independente da natureza material ou produtiva. Honestamente, para nós, que trabalhamos com joalheria, é uma loucura. 

Por mais que exista uma vontade de dizer quem está certo e quem está errado, basta pesquisar a origem da palavra para descobrir a verdade: o vocábulo joia remonta ao termo jocalis que, em latim, quer dizer “aquilo que causa prazer e alegria”. Ou seja, joia mesmo, verdadeira e autêntica, é tudo e qualquer coisa que afaga o coração, nos faz sorrir e nos lembra que a vida vale a pena de ser vivida. 

Se assim é, por que os dicionários nos contam outra coisa?

Por que quando falamos em joias, pensamos em colares de ouro e diamantes?

O conceito de joia nunca esteve muito distante do ornamento. Afinal, a ornamentação é uma fonte inesgotável de alegria e prazer para a maior partes das pessoas. Mais do que se embelezar, adornar-se é portar aquilo que fala sobre você, te coloca e destaca enquanto ser único e insubstituível. E tudo que é único e insubstituível, é também precioso. Para entender a joalheria tal qual ela é hoje, esse conceito é essencial: preciosidade.

A ornamentação nas sociedades humanas assumiu principalmente as formas de adereços ou modificações corporais. Estas últimas são mais evasivas que os adereços: dentre elas, destacam-se as tatuagens e as escarificações, que costumam ser levadas para o resto da vida depois de feitas. Os adornos corporais, por sua vez, são objetos ornamentais portáteis que podem ser fixados ao corpo humano, como os brincos, os colares, as pulseiras, os broches, os pingentes, as tornozeleiras, as medalhas, os diademas e as coroas.

O valor dos ornamentos e o esforço para obtê-los sempre estiveram relacionados. Sob esse aspecto, as manifestações estéticas, apesar de se valerem também de sua própria beleza, são muitas vezes demonstrações de resistência e persistência. Um destaque disso é a escarificação, uma técnica de ornamentação corporal em que cicatrizes formam padrões visuais na pele do indivíduo. Comum em algumas tribos africanas, como Bodi, Mursi e Surma, da Etiópia do Sul, a escarificação é para eles um padrão-de- beleza que denota status de força e pertencimento étnico.

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Escarificação em pele humana.

A dialética entre sacrifício e ornamento se dava pela lógica de que, quanto mais empenho envolvido, mais alegria esse adorno seria capaz de fornecer. Ou seja, quanto mais esforço, mais joia ele seria. Naturalmente, isso impactou também as escolhas materiais e produtivas para a fabricação de adornos corporais. Materiais raros e de difíceis acessos foram se perpetuando como as escolhas mais valiosas para ornamentos, do mesmo modo que os métodos produtivos mais árduos eram considerados demonstrações de dedicação e de envolvimento.

O conceito da joia enquanto adorno obtido por meio de alto empenho e trabalho primoroso não foi uma exclusividade das culturas mesopotâmicas e europeias, conhecedoras da ourivesaria e metalurgia. Pelo contrário, outros povos, às vezes distantes em tempo e em espaço, manifestavam essa mesma percepção. Em sua obra A joia: design e história publicada em 2008, a historiadora Eliana Gola cita como exemplo desta ideia a cerimônia de casamento na tribo Caribe, na região do Rio Xingu, quando o índio deve presentear o sogro com um colar chamado Urapei. O matrimônio acontecia se a joia fosse feita com primor, e a peça era seria usada pela esposa como demonstração do afeto de seu marido que se dedicou por horas para fazer-lhe a joia. 


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Colar Urapei e o livro de Eliana Gola: A Joia - História e Design.

 

Para fazer o colar Urapei, são recolhidas dezenas de caramujos, esses são selecionados e depois são retiradas lascas com menos de um centímetro de largura por dois de comprimento. As lascas são esfregadas nas pedras dos rios até atingirem o formato ideal, em seguidas são justapostas em semicírculo, formando um colar.

Em diversas culturas ao redor do globo, floresceu a associação entre a preciosidade e os metais. De brilho inédito e difícil obtenção, os metais que não oxidavam rapidamente (como prata e ouro) passaram a ser utilizados para manufatura de adornos corporais. As gemas minerais e naturais também foram usadas, tanto por sua estética, quanto pelos seus valores místicos e socioeconômicos.

As joias, em seu louvor de materiais preciosos e técnicas elaboradas, foram vistas na Mesopotâmia, na Grécia, no Egito e em Roma. Paralelamente, muitas outras civilizações apresentaram, mediante sua própria herança cultural, ornamentos corporais feitos a partir de ouro, prata e cobre. Desde os formosos impérios da América Pré-Colombiana às tribos aborígenes da Austrália, a joalheria se firmou como uma amostra plural e diversificada das capacidades humanas.

Apesar de sua origem distante, as joias em pouco se modificaram. Suas formas, cores e técnicas mudaram, e até evoluíram, mas a sua essência ainda é a mesma. Ser presenteada com joia é receber uma mensagem de prazer e de alegria, e isso tangencia o valor monetário dos materiais porque esbarra naquela dialética que foi citada lá em cima. Quantas horas aquela pessoa trabalhou para poder te dar esse anel?

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Brinco Candeira de Amanda De Nardi. Prata, cristais de quartzo e diamantes labgrown.

Em essência, essa é a ideia por trás de uma joia. Até o século XIX, não havia nada de complexo sobre isso, já que o termo “joia” designava com clareza um adorno corporal de valor proporcional à qualidade e à raridade de sua materialidade. A partir de então, com o desenvolvimento industrial e a produção em massa de “joias de imitação” de baixo custo, começou a haver um embaraço entre as definições de joias, semi-joias e bijuterias.

Atualmente, a flutuabilidade da terminologia joia se deve também ao questionamento crítico sobre o conceito de preciosidade. Desde o movimento Arts & Crafts, as produções de artistas e de designers desafiam a ideia de que o valor da joia está atrelado ao material no qual ela é produzida. Essas reflexões continuam sendo trazidas, e a joalheria contemporânea berra esse discurso.

É justo, naturalmente, questionar se a preciosidade só pode ser medida por meio do esforço de se conquistar algo raro e belo. Afinal, o que é precioso para você?

 

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Sofia Couto é uma designer de joias e
estudiosa do setor, apaixonada de nascença
por joalheria, literatura e natureza.

 

 

 

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