COVID-19: Como higienizar suas joias na pandemia



As joias poéticas de Cecília Meireles

Postado por Amanda De Nardi em

4 minutos de leitura. Texto de Sofia Couto.

Normalmente, o mundo nos entrega o que esperamos: uma caixinha de joias ou um livro de poemas. Mas, por vezes, algo ou alguém interrompe o ritmo óbvio da vida e surpreende o próprio mundo. Assim foi com Cecília Meireles. Um ponto fora da curva que nos entregou o que não esperávamos: uma caixinha de poemas e um livro de joias.

É difícil encontrar alguém que na infância não tenha lido os poemas A bailarina ou O colar de Carolina. Ainda mais difícil encontrar um brasileiro que não conheça Cecília Meireles, um ícone da literatura e umas das maiores poetas que o Brasil viu florescer. Ler Cecília é conhecer o que há de mais lírico nas verdades do cotidiano e gozar da poesia que existe na infância, no amor, na guerra ou no luto. Aos leitores, basta contemplar a capacidade que a poeta tinha de transitar entre temas variados, desabafando em versos sua essência e vida, expondo suas opiniões, suas frustações e seus encantos.

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Capa do livro 'Isto ou Aquilo' (1964), de Cecília Meireles.

A vastidão de assuntos que Cecília Meireles levou aos seus poemas é provavelmente incalculável, e é improvável que exista alguém que não veja a si mesmo espelhado na obra de Cecília Meireles. A antologia poética da autora é extensa e os temas abordados se expandem desde a espiritualidade à humidade, do ego à realidade social... Certamente, há algo que seja de seu interesse:

Identidade pessoal? Retrato Natural (1949). 

Deus e espiritualidade? Nunca mais... Poema dos poemas (1923). 

Conflitos e discriminação racial? Morena, pena de amor (1939). 

História brasileira? Romanceio da Inconfidência (1953). 

Amor, paixão e perda? Canções (1956). 

Além desses, ainda há muitas obras que merecem ser lidas e sentidas em sua intensidade, e vale também se ater aos vários poemas avulsos que não foram publicados em livros. Hoje, para mim, a Cecília Meireles é um livro de cabeceira, uma palavra acolhedora e uma companhia discreta que só fala quando é pedida, e sempre tem algo interessante a dizer.

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 Cecília Meireles

Encarando a pilha de livros e de poemas de Cecília Meireles, o que mais me surpreende é a sinceridade das palavras e a entrega emocional que ela deixou em sua obra. Quando leio seus textos, sinto as verdades sendo estregues e, mesmo no romanceio de suas rimas, não há palavras vãs. Em sua brevidade, Cecília se permitia extravasar e, de verso em verso, ela deixou para o leitor sua imagem: uma mulher de profundo senso prático que, mesmo com a alma calejada pela dor e pela solidão, insistia em ver a beleza da vida.

Naturalmente, a beleza não vinha ao custo da vaidade ou das mentiras, muito menos da superficialidade. Pois bem que a beleza vinha da própria poesia e da sina de ser poeta, uma romântica sem pudor. Sua primeira publicação foi em 1919, quando ainda era adolescente.  Nascida em uma família tradicional da classe média fluminense em 1901, Cecília teve uma vida distinta pela boa educação e pela profunda solidão. Sua família, pequena e marcada por muitas mortes, rendeu-lhe uma infância silenciosa e pensativa. Crescida, Cecília conheceu o amor e a dor em seu primeiro casamento, com Fernando Correia Dias, de quem ficou viúva ainda aos 34 anos, e ainda com três filhas para criar. Cinco anos depois, em 1940, casou-se com o engenheiro Heitor Grillo, e passou a viver uma vida tranquila, de muitas viagens e muita produção poética.

Mesmo em tempos de luto e dor, Cecília Meireles produziu poemas belíssimos que traduziam os sentimentos de muitos e, em razão disso, sua obra atingiu e se propagou, muitas vezes com discrição e até anonimato. Destaco a música Canteiros, cantada primeiro por Fagner em 1973, cuja letra é um poema de Marcha escrito por Cecília Meireles e publicado em seu livro Viagem (1939).

Cecília trilhou seu caminho sem se esquivar de temas polêmicos e de críticas sinceras. No poema Este é o lenço, do livro Mar Absoluto e Outros Poemas (1945), a poeta retrata o sofrimento do amor e da realidade feminina: uma vida de esforço, de dores e amores. Com sutileza sem igual, Cecília compara o trabalho de um bordado ao fino labor da ourivesaria: 

 

Este é o lenço de Marília
pelas suas mãos lavrado,
nem a ouro nem a prata,
somente a ponto cruzado.
Este é o lenço de Marília
para o Amado.

 

Inspirando-se na interseção entre o universo têxtil e o joalheiro, a designer de joias Amanda De Nardi lançou em 2019 uma coleção de joias em prata que levam lenços de seda. Batizada de Este é o lenço, em homenagem ao poema de Cecília Meireles, a coleção apresenta peças conceituais e autênticas, que promovem a discursão sobre o esforço empenhado, principalmente de mulheres, para que a indústria da moda opere. Como símbolo de reconhecimento e de esforço, os brincos apresentam mãos que portam tecidos. Essas mãozinhas, disponíveis em diferentes banhos metálicos (que simbolizam diferentes tons de pele) permitem que os lenços sejam retirados e recolocados, propondo a ideia de atualização e customização pelo usuário.

 

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Brinco Viver de Suspiros, em prata 925 e lenço de organza de seda branca.

 

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Brinco Ternos Rios, inspirado no poema 'Este é o Lenço' de Cecília Meireles.

 

 

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Brinco Laço Encarnado, inspirado no poema 'Este é o Lenço' de Cecília Meireles.

 

 

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Sofia Couto é uma designer de joias e
estudiosa do setor, apaixonada de nascença
por joalheria, literatura e natureza.

 

 

 

 

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