COVID-19: Como higienizar suas joias na pandemia



Por que temos a necessidade de nos enfeitar?

Postado por Amanda De Nardi em

3 minutos de leitura. Texto de Sofia Couto.


Você já se perguntou por que nos adornamos? É possível que não. Colocar um brinco ou um cachecol ao arrumar-se pela manhã já faz parte da nossa rotina de tal modo que dificilmente paramos para pensar sobre isso. Mas é uma pergunta curiosa: de onde vem essa vontade que sentimos de se nos complementar com objetos, acessórios, penduricalhos? De colorir nossas paredes? De enquadrar nossas pinturas? Ou até mesmo de pintar?

Claro que não existe uma resposta pronta para isso: as manifestações estéticas e artísticas da humanidade atingem uma esfera de complexidade quase indecifrável. E, para explicar nosso impulso de “embelezar” o mundo, precisamos entender que a ornamentação não nasceu com a humanidade, pois ela surgiu quase junto com o surgimento da vida na Terra. Ficou confuso?

Bom, entenda “ornamento” como aquilo que tem uma função essencialmente comunicativa. Como os adjetivos caracterizam os substantivos, os ornamentos servem para modificar os seres, os objetos ou as noções nomeadas. Tudo que fazemos e todas as relações que construímos são sutilmente intermeadas por ornamentos que podem ter a capacidade de atrair, repelir ou disfarçar. Em suma, os ornamentos são consequentes às relações perceptivas. Se podemos ver, cheirar, sentir, ouvir, provar... Enfim, se podemos perceber, provavelmente estamos adornando. Encare dessa forma: o ornamento não é um supérfluo, mas é aquilo que é subliminar à sobrevivência e imprescindível para comunicação não-verbal. 

O mesmo acontece na natureza com os microrganismos, a flora e a fauna. Afinal, toda a vida que está sob o julgo da percepção, encara também a possibilidade de ceder à ornamentação. O artista italiano Gillo Dorfles já dizia “os reinos naturais são espontaneamente participantes de uma presença ornamental”. Por quê? Porque há cerca de dois bilhões de anos, quando os microrganismos começaram a precisar de uns dos outros para se reproduzir, os mecanismos de interação passaram a ser usados para fazer escolhas de potenciais parceiros sexuais. A interface indivíduo-meio se tornou de tamanha importância para a preservação da vida que a capacidade de percepção está presente em todas as espécies de vida do nosso planeta, sendo exceção os microrganismos assexuados.

Os alertas químicos de uma árvore, o cheiro de uma flor, as cores de um pássaro, a padronagem de uma onça, o colar de diamantes de uma mulher... A natureza e a humanidade trilharam seus caminhos investindo nos ornamentos como veículos de comunicação e de interação social. E, embora tenham sido usados com propósitos semelhantes, os ornamentos humanos e os não-humanos não poderiam ser, entre si, mais diferentes. Como os resultados de uma mesma equação podem ser tão distantes?

As árvores têm suas flores;

alguns animais têm suas peles com padronagens;

as aves têm suas penas coloridas;

alguns minerais têm efeitos multicores.

E o ser humano? O que lhe coube de ornato?

(BRAGA, 2006, p. 15)

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Fotografia de flamingos para o livro "Frágile". (Foto: Pedro Jarque Krebs.)

Daí então entendemos a primeira explicação para a origem do ornamento humano: antropólogos explicam que, ao se olhar ao redor, o homem primitivo se via excluído e humilhado perante as exuberâncias da natureza, decidindo assim ser autor de seus próprios ornamentos. Nossos enfeites são externos aos nossos corpos porque somos naturalmente desprovidos de atributos decorativos, e a solução que encontramos foi furtar das partes alheias: fizemos uso de conchas, ossos, dentes, garras, folhas, flores, penas, pedras e metais.

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Indumentárias feitas de penas de pássaros usadas por índios Kayapó. (Foto: AFP Photo / Antonio Scorza.)

Para além da mimetização da natureza, outra explicação para o processo de ornamentação humana é a vontade instintiva que a humanidade sentia de expressar sua individualidade e de criar marcos materiais para a designação de castas sociais. De modo parecido a outros animais, os seres humanos se manifestam esteticamente para estabelecer hierarquias e posicionamentos sociais. A diferenciação estética por meio de ornamentos pode também ser interpretada como um ato de exibicionismo para a seleção intersexual, uma vez que é possível assim atribuir ao portador características como bravura, prestígio ou poder, virtudes favoráveis à atração de parcerias sexuais. 

Mas essas não são as únicas relações que os ornamentos humanos têm com os ornamentos naturais. Os ornamentos para os humanos são também podem ser considerados recursos que contribuem para a sobrevivência e a reprodução. As joias de proteção – amuletos ou pequenos adereços de “caráter mágico” estão relacionados ao instinto de sobrevivência, que faz desses objetos uma fonte de proteção espiritual.

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Joias como expressão de fé: Colar João 15:12, de Amanda De Nardi. (Foto: Divulgação.)

Enfim, talvez o mais o surpreende de todas essas informações seja compreender que é dentro do universo da arte e do luxo, onde nós nos sentimos mais distanciados na natureza, que nós manifestamos uma das nossas facetas mais primitivas. Adornar-se, com joias, roupas ou capinhas de celulares, é sim um ato ontológico: um hábito que advém de raízes biológicas e se transforma aos moldes da cultura.

Meu conselho? 

Adorne-se, adorne-se sempre, e como e o quanto quiser. 

Porque se adornar é se permitir ser percebido. 

E, se é dando que se recebe, é apenas sendo percebido, que percebemos o outro.

E, é percebendo o outro, que podemos transformar o mundo.

O fato de ver e ser visto não são fenômenos de uma consciência,

mas ingredientes da própria carne do mundo.

(MERLEAU-PONTY, 1945)

 

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Sofia Couto é uma designer de joias e
estudiosa do setor, apaixonada de nascença
por joalheria, literatura e natureza.

 

 

 

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